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CAMAYOC HUASI - A CASA DO ARTESÃO  
Artigos publicados no
Guia de Santa Teresa.

 • Camayoc Huasi –
   A Casa Do Artesão

   
 
   

Há alguns meses, escrevi, nas páginas de um jornal do bairro, o que seria o “manifesto da minha galeria de arte”. Não vou aqui reproduzi-lo, nem em parte, porque seria enfadonho para os que já me privilegiaram com a sua leitura e redundante para aqueles que já visitaram a galeria e me deram a oportunidade de um bate-papo (de qualquer forma, se houver interesse, tenho, na galeria, algumas cópias daquele documento).
A própria, até então, inexistência de um espaço para exibição e venda dos produtos finais dos artistas plásticos da região de Santa Teresa (conhecida por sua intensa e rica produção cultural) está, agora, provocando reações bastante positivas e animadoras, mas parece, por outro lado, estar conduzindo a uma indevida interpretação dos objetivos reais e das possibilidades do espaço que venho administrando. Em todo caso, a galeria é algo que não passa indiferença e, sejam positivas ou negativas, as reações servem ao aperfeiçoamento dos trabalhos.
Gostaria de esclarecer alguns desses pontos e evitar alguma eventual frustração de expectativas por parte de visitantes, artistas e interessados em geral.
Em primeiro lugar, a galeria é um espaço amplo o suficiente para servir como meu ateliê, me possibilitar ministrar cursos e, ainda, colocar a disposição do público, para pura apreciação ou negociação, os meus trabalhos e os de outros artistas que se identifiquem com o projeto da galeria. Secundariamente, tenho boas fontes de suprimento de material para pintura artística (telas, painéis, molduras, pincéis, tintas etc), que adquiro sempre em quantidades superiores às que necessito, pondo o excedente à disposição dos interessados a preços bastante vantajosos em relação ao mercado carioca.
Com relação a este último ponto, não vou, aqui, apresentar uma tabela de preços, mas tenho segurança para afirmar que não vale a pena “descer” para a cidade a fim de comprar esses itens. Venham verificar!...
Falava eu da má interpretação que parte do público vem dando à CAMAYOC HUASI (expressão quéchua que vem significar casa = HUASI do artesão = CAMAYOC) ou a qualquer outra eventual galeria, com qualquer outro nome. Trata-se, sem dúvida de algo que decorre da própria falta de experiência com esse tipo de atividade (inclusive, incluo-me nesse grupo de inexperientes, já que esta é a minha primeira incursão no mercado).
Pode parecer caricatura, mas, nesses meses de atividade, já passei por situações como:
1. Uma pessoa, evidentemente vinda da feira ou do supermercado, pela quantidade de sacolas que carregava, parou na calçada, diante da galeria e perguntou (como se fosse um item a ser incluído nas suas sacolas de compras): “Quanto é um quadro?”. Tentei faze-la entrar, descansar, e verificar que cada obra tinha um tamanho, um conteúdo próprio, uma inspiração especial, um reconhecimento da comunidade artística pelas premiações que já havia recebido. Alertei, também, que nada ali era produzido em série, que cada trabalho era único etc, e que, por tudo isso, não poderia existir qualquer espécie de preço “tabelado” em função de algum critério objetivo (além de tudo, sempre há de prevalecer o principal critério: o GOSTO. As obras de maior valor comercial podem não “tocar” o interessado, enquanto outras, menos valorizadas, menos elaboradas, menos privilegiadas quanto à visualização/localização dentro da galeria, podem ser justamente aquelas que “casam” mais apropriadamente com o gosto do interessado). De toda forma, não foi possível convencer aquela pessoa a atender os apelos. Lamentavelmente, a conversa foi concluída com a pergunta: “Não tem nada aí de 10 (R$ ?) ?” ... Mesmo que tivesse, não seria esta a forma de vender e nem estaria eu cumprindo o dever que assumi há muitos anos: o de transmitir conhecimento (sou, ademais, uma professora universitária que, mesmo aposentada, não me livro do vício de seguir tentando ensinar).
2. Já quiseram “deixar por ali, para ver ser a gente conseguia alguma coisa,” algumas obras até interessantes, mas esse não é o objetivo da minha huasi. Nunca farei a intermediação entre proprietários (não-autores) e o público, com vistas ao lucro. Isso não tem qualquer relação com a produção verdadeiramente artística. É coisa para os atravessadores capitalistas, por quem não nutro qualquer espécie de simpatia. Tenho ódio deles. Ódio e nojo, como diria o saudoso Dr. Ulisses Guimarães.
3. No início, disse que não voltaria à primeira matéria que escrevi sobre essa minha aventura, mas tenho que repetir que a minha huasi (que sempre estará, comigo à frente e com a colaboração dos meus colaboradores, à disposição do público, dos artistas e de quem queira apenas “bater um papo”) é apenas um arremedo de Galeria de Arte. Falta-lhe o “glamour” das líderes do mercado de arte, mas tem nela a informalidade, que deixa o visitante a vontade, sem os receios e intimidações que lhe causam uma estrutura luxuosa, seja uma galeria ou um museu. Na verdade, repito, trata-se de um simples ateliê, com espaços adicionais para ministrar cursos, oferecer material de pintura e expor tanto os meus trabalhos quanto os de outros artistas que se integrem ao projeto, que envolve o “crescer juntos”.
4. A CAMAYOC HUASI está perto de completar um ano de existência e ainda sigo tendo que cobrir, com recursos próprios, os habituais décits de caixa, o que não é qualquer surpresa tendo em vista os alertas e cartilhas do SEBRAE. Mas sigo, também, por outro lado, firme no meu propósito de oferecer ao Bairro de Santa Teresa, em que optei viver, algo mais culturalmente enriquecedor que o botequim que, antes, existia no local.
Não impedi ao público o sagrado prazer de saborear uma deliciosa cerveja gelada num dia de calor (há inúmeros outros locais para isso), mas, pela primeira vez, está à disposição de todos, quase todos os dias, independentemente do calendário turístico que impuseram ao bairro, um lugar para a apreciação da Arte.
5. Mas fico preocupada quando sinto que estão me atribuindo uma importância e um poder de influência que, de fato, não tenho.
Recentemente, recebi um artista que, com uma tela enrolada sob o braço, sem sequer ensaiar um gesto de abri-la, quis impor suas condições para exibi-la na galeria (dispenso as aspas, porque o choque que sofri não me permitiu captar, palavra por palavra, o discurso do meu colega de ofício): em troca do prestígio que ele traria com sua obra, ele queria que a galeria se encarregasse das providências e de custear o chassis e a moldura, obviamente, dignos para o seu trabalho, além de cuidar da publicidade e das garantias (seguros contra roubo, danos, incêndios etc). Segundo o meu colega, isso seria o mínimo que a minha huasi poderia fazer para ter no seu acervo temporário uma obra dele.
Bravo o rapaz, que com tanta veemência defende o seu trabalho! Mas sequer pedi para analisar a obra (sempre enrolada), porque seria algo inútil, e interrompi o diálogo, destacando minhas limitações, até antevendo o que ele me exigiria, em seguida, além do “mínimo”, já definitivamente inatingível pela minha huasi.
Tomara que esse artista atinja o reconhecimento público esperado, ocupando o lugar que ele tem todo o direito de achar que lhe cabe.
Talvez, algum dia, eu veja nos jornais diários ou em publicações especializadas, matérias sobre a genialidade desse artista. Mas, sinceramente, não terei uma gota de arrependimento por não tê-lo atendido nas suas aspirações: eu, simplesmente, não tenho qualquer condição de proporcionar a promoção que me era requerida.
Torço, verdadeiramente, para que o artista tenha melhor sorte nas duas ou três galerias do Rio de Janeiro que podem atendê-lo como ele acha devido.
6. Não sou, reafirmo, uma investidora/intermediária no mercado de trabalhos artísticos, nem posso ajudar efetiva e materialmente na construção da carreira de algum artista. Lamento muito! (antes disso, minha formação política, me orienta para, primeiro, me preocupar com os que precisam de comida. Depois, tratarei da diversão e arte). Sou apenas uma pessoa que gosta de pintar e, modéstia às favas, sabe faze-lo. Procuro a cumplicidade de pessoas/artistas/alunos/curiosos que se identifiquem com o meu projeto, que pretende transformar a galeria numa verdadeira huasi, num lar, dos apreciadores da Arte. O que me torna algo diferente é que tenho um espaço que está aberto aos interessados. Sejam bem-vindos!

(Obs.: este texto está encabeçado por algumas fotos, que mostram o visual da minha huasi e detalhes da última mostra coletiva, bastante eclética, que foi ali realizada.)

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