| |
A
BELEZA COMO FONTE DE PRAZER ESTÉTICO
Como canta o Milton Nascimento “todo artista tem que
ir aonde o povo está”.
Pois é, quando comecei a pintar com mais segurança
e firmeza e tentei entrar no dito “mercado artístico”,
tive muitas dificuldades de fazer divulgar o meu trabalho;
uma mostra coletiva aqui, outra ali; o contato direto com
verdadeiros atravessadores das artes (não nego que
caí em algumas armadilhas armadas por gente desonesta),
enfim, vários fatores me deixaram à margem
do “mercado” e me isolaram no meu ateliê,
onde continuei produzindo, apesar de tudo.
Um dia, olhando com detalhes minha vasta produção,
pensei que não era justo manter aquilo reservado
para deleite apenas do meu círculo familiar e de
amizades, exibindo-o apenas e muito eventualmente em exposições
nem sempre muito expressivas, em galerias freqüentadas
sempre pelas mesmas pessoas.
Moro em Santa Teresa desde o ano de 2000 e algo que sempre
me chamou a atenção era o fato do “Bairro
dos Artistas” não contar sequer com uma galeria
aberta ao público (note-se que estou tratando de
arte e não de artesanato – que também
é importante, mas ocupa um espaço diferente
e também tende a se massificar com a produção
em série atendendo a demanda dos turistas). Por isso
(ou aproveitando-se disso) foi criado o “Santa Teresa
de Portas Abertas”, do qual vou economizar tempo em
comentários, já que todos sabem que trata-se,
hoje basicamente, de um evento gastronômico, com pouca
ênfase por parte do público na busca pelo conhecimento,
tanto do bairro, como da própria arte aqui desenvolvida.
De uma hora para outra, surgiu a oportunidade de alugar
um imóvel (antes ocupado por um típico botequim
carioca, mas cujo responsável faleceu e a família
não teve condições de levar o negócio
adiante) e nele instalar um “arremedo” de galeria
de arte. “Arremedo” porque eu não tinha
condições de dotá-lo do luxo e glamour
das grandes galerias (inclusive museus), onde o povo se
sente intimidado de passar pela porta.
Ao contrário, quis efetivamente exibir minha arte
para todo tipo de pessoas. Por isso, o ponto comercial que
acabei de alugar e instalar minha galeria e meu ateliê,
é uma loja ao rés do chão. Não
há absolutamente coisa alguma que impeça a
entrada de quem quer que seja. Por aqui passam outros artistas,
donas-de-casa, crianças, curiosos, alguns bêbados,
muita gente interessante com quem posso discutir arte, vida,
política e o próprio conteúdo das minhas
obras, que, ademais das inevitáveis flores e paisagens,
contém muito da história, geografia, ecologia
e sociologia do Brasil e do mundo.
Eu e meu marido somos viajantes contumazes. Já temos
mais de duas dúzias de países no nosso currículo
de “cidadãos do mundo”. Por onde passamos,
vamos fotografando por diversos ângulos tudo o que
vemos e trazemos os resultados para o ateliê a fim
de traduzi-los com um pincel e um pouco de tinta numa tela.
Também recuperamos fotos antigas, faço uma
releitura e logo as traduzo num quadro novo.
Tudo isso, no entanto, até o mês passado, com
as raras aparições públicas de duas
ou três telas em alguma exposição, estava
armazenado no ateliê que tenho em casa ou espalhado
pelas paredes da própria casa. De toda forma, era
algo privado demais.
Agora, tenho todo esse material à disposição
da visitação pública aqui, na galeria.
Como eu dizia, quase todos os meus quadros têm uma
história por trás e me alegra muito poder
contar essas histórias, despretensiosamente, esquecendo
interesses comerciais imediatos.
Um momento altamente gratificante foi quando, dia desses,
entrou um menino de uns sete ou oito anos na galeria e eu
pude contar para ele um pouquinho da História (afinal,
eu também sou historiadora), sempre tendo como pano
de fundo o Brasil, através dos trabalhos expostos.
Numa das telas, ele identificou o Corcovado, mas, surpreso,
denunciou a ausência do Cristo Redentor. Bem, isso
foi um gancho para contar para o meu novo amigo quase cem
anos da história desta cidade.
Por esta experiência que estou vivendo, sinto-me no
exato lugar onde quero estar: no meio do povo.
Minha obra não é uma obra libertária
nem vai inspirar nenhuma revolução, mas sempre
procuro fazer com que as pessoas se vejam retratadas nos
seus hábitos, “habitats”, história,
geografia, no entanto, sem nunca perder de perspectiva o
belo, a estética, a sensação indescritível
que nos envolve diante da beleza. Nunca retratei a pobreza
(coisa que já faz com muito sucesso comercial um
conhecido fotógrafo); ao contrário, quero
revelar aos meus visitantes, sobretudo os mais humildes,
que existe um mundo muito bonito a ser por eles conquistado.
(Obs.: o nome da galeria, Camayoc-Huasi, é uma expressão
quéchua que significa Casa do Artesão. Sua
escolha deveu-se ao meu apoio irrestrito ao processo de
integração da América Latina. Hoje,
já há quase 30 milhões de descendentes
dos incas vivendo nos países sul-americanos e eles
têm uma cultura que não pode ser desconsiderada.
Se os queremos como irmãos, conhecer algo da sua
língua é algo, no mínimo, simpático) |
..... |
|